O Fluxo #1 · Processos

Sobre o que flui e o que trava nas operações criativas

Tem uma palavra que aparece em quase todas as conversas que tenho com profissionais criativos. Não é prazo. Não é briefing.

Fernanda SoutoFundadora e Consultora Sr.2 min de leitura

Tem uma palavra que aparece em quase todas as conversas que tenho com profissionais criativos.

Não é prazo. Não é briefing.

É cansaço.

Um cansaço específico. O de refazer o que já estava feito. O de chegar na sexta sem entender onde a semana foi. O de trabalhar muito e ter a sensação de que entregou pouco.

Nas últimas semanas conversei com pessoas de moda, publicidade, produto e gestão de projetos.

Contextos diferentes. Mesmo padrão.

Ninguém chamava o que vivia de retrabalho. Diziam: "a gente ajusta muito", "as coisas voltam bastante", "existe muito alinhamento ao longo do processo".

O retrabalho estava lá. Com outro nome.

Numa das conversas, uma profissional de desenvolvimento de produto me contou que o maior problema do dia a dia não era falta de criatividade nem falta de comprometimento. Era falta de informação no começo. Pedido chegando por WhatsApp, por e-mail, de boca. Cada um num formato diferente. E lá na frente, alguém parava tudo para descobrir o que exatamente tinha sido pedido, e refazia.

Em outra conversa, uma gerente de projetos disse uma coisa que ficou comigo: "a galera não resiste ao processo. Ela não aguenta mais parar o que está fazendo para resolver o que deveria ter sido definido antes."

São falas diferentes. Descrevem a mesma coisa.

Tem uma crença de que retrabalho é consequência de imperfeição. Que se o time fosse mais cuidadoso, ele desapareceria.

Não é bem assim.

Na maior parte dos casos, o retrabalho não nasce na execução. Ele nasce antes. No briefing que deixa espaço demais para interpretação. Na decisão que ficou só na cabeça de alguém. Na informação que existe, mas não está registrada em lugar nenhum.

Trabalhando com um time criativo, me deparei com algo que ficou gravado: eles passavam horas em reunião tentando lembrar o que tinha sido decidido na reunião anterior. Não porque eram desorganizados. Porque o processo não gerava registro. E sem registro, cada entrega virava uma tentativa de reconstruir o que já tinha existido.

Isso não aparece no relatório. Aparece no cansaço do time e nos prazos que nunca fecham direito.

Uma pergunta simples para levar para esta semana:

Nos últimos 30 dias, quantas vezes você ou alguém do seu time precisou voltar em algo que já tinha sido feito, decidido ou entregue?

Não precisa do número exato. Só precisa ser honesto.

Se a resposta for "bastante", o próximo passo não é buscar uma ferramenta melhor. É olhar para onde a informação some. Onde a decisão fica só na cabeça. Onde o processo existe mas não gera nenhum rastro.

É aí que o retrabalho começa. Antes de qualquer execução.

Às vezes chegava uma solicitação e nem era dado andamento porque simplesmente se perdia a folha. Se não está registrado, não executa.

Profissional de desenvolvimento de produto, setor têxtil.

O retrabalho não some quando o time trabalha mais.

Some quando a informação certa chega antes.

Até a próxima, Fer · Bravê

Publicado originalmente em O Fluxo #1 — abre em nova aba, a newsletter da Bravê no LinkedIn.

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