Tem uma coisa curiosa sobre fazer algo pela primeira vez.
A primeira vez não se apressa. Você pode querer, pode tentar, pode se cobrar velocidade, mas ela tem um tempo próprio que não obedece à pressa. Aprender de verdade, criar algo que ainda não existia, entrar num território que você nunca pisou. Nada disso acontece no ritmo que a gente gostaria.
E talvez seja justamente por isso que a gente evita tanto começar.
Vivemos cercados de uma cultura que trata tempo como inimigo.
Rápido é bom. Devagar é falha. Se demorou, é porque você não é eficiente o suficiente. A pressa virou sinônimo de competência, e qualquer coisa que peça paciência começa parecendo um problema a ser resolvido.
Só que as coisas que mais importam raramente cabem nessa lógica. Elas pedem maturação. Pedem tentativa, erro, refazer. Pedem um tipo de tempo que não é perdido, é investido. E quem não se permite esse tempo acaba entregando sempre a versão apressada de tudo, aquela que sai, mas que nunca é o que poderia ter sido.
Já escrevi aqui sobre times que vivem no "tudo para ontem" e não conseguem terminar nada.
O mecanismo, quando é com a gente mesma, é o mesmo. A pressa espalha a energia por tudo e não deixa nada amadurecer. A gente começa dez coisas e não conclui nenhuma, não por falta de capacidade, mas por falta da permissão de ir fundo em uma só.
Fazer algo bem feito pela primeira vez exige o contrário. Exige estreitar o foco, aceitar que vai levar o tempo que levar, e sustentar essa escolha mesmo quando tudo ao redor pede pressa. É a mesma estrutura que eu defendo para as operações, aplicada à vida de quem cria: não é o tempo que trava, é a falta de espaço para ele existir.
Ando pensando muito nisso ultimamente. De um lugar bem pessoal.
Tem experiências que a gente só entende depois de se permitir mergulhar nelas sem cronômetro. Coisas que não dava para apressar, por mais que eu quisesse. E que só ficaram do jeito que precisavam ficar porque, em algum momento, eu decidi dar a elas o tempo que elas pediam.
Ainda não vou falar sobre o que é. Mas foi essa a lição que ficou, e ela mudou o jeito como eu penso sobre criar qualquer coisa do zero.
A gente sempre acha que não tem tempo. Até perceber que o tempo estava lá. A gente é que não tinha se permitido usar ele assim.
Nem tudo que vale a pena cabe na pressa.
Algumas coisas só acontecem quando você finalmente se dá o tempo que elas sempre pediram. E quase sempre valem a espera.
Até a próxima, Fer · Bravê
Publicado originalmente em O Fluxo #10 — abre em nova aba, a newsletter da Bravê no LinkedIn.
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