O Fluxo #7 · Cultura

As crenças que ninguém escreve mas todo mundo segue

Fernanda SoutoFundadora e Consultora Sr.2 min de leitura

Tem uma coisa que aprendi observando muitas operações diferentes.

Antes de mudar qualquer processo, você esbarra em algo que não está escrito em lugar nenhum. Não está no organograma, não está no manual, não está no fluxo. Mas comanda tudo.

São as crenças. O que as pessoas acreditam, no fundo, sobre o próprio trabalho.

Toda equipe carrega um conjunto de verdades que ninguém nunca disse em voz alta, mas que todo mundo segue.

  • "Aqui as coisas sempre foram assim."
  • "Se a gente organizar demais, perde a essência."
  • "Processo é coisa de quem não confia na gente."
  • "O jeito que fulano faz é o jeito certo."

Ninguém escreveu isso. Ninguém decidiu isso numa reunião. Mas essas frases moldam como o trabalho acontece muito mais do que qualquer processo formal.

E é por isso que tanta mudança bem desenhada não cola. Não porque o processo estava errado. Porque ele esbarrou numa crença que ninguém sabia que existia.

Um caso comum que eu vi foi esse: a crença de que estrutura e criatividade não podem conviver.

É uma crença antiga, forte, que a pessoa carrega desde cedo. Ela acredita, de verdade, que qualquer tentativa de organizar vai matar o que faz o trabalho ser bom. Então resiste. Não por má vontade. Por convicção.

E o ponto delicado é: você não muda uma convicção com um fluxograma. Você pode ter o melhor processo do mundo na mão, mas se ele bate de frente com uma crença que a pessoa nem sabe que tem, o processo perde. Sempre.

O que me faz pensar é que a gente costuma tratar processo como uma questão técnica. Ferramenta, etapa, responsável, prazo.

Mas processo é, antes de tudo, uma questão humana. Ele acontece através de pessoas que acreditam em coisas. E enquanto essas crenças ficam invisíveis, a gente fica tentando resolver na superfície um problema que mora lá embaixo.

Talvez a pergunta mais importante antes de mudar qualquer coisa não seja "qual o processo ideal?". Seja "o que essas pessoas acreditam sobre o trabalho delas e de onde vem isso?".

O jeito que a gente faz não está escrito em lugar nenhum. Mas todo mundo sabe qual é.

— Anotação feito em um diagnóstico. Essa é a frase que resume o que é mais difícil de mudar.

Processo que ignora crença não sobrevive.

E crença não muda porque alguém apresentou um método melhor.

Ela muda quando a pessoa se sente entendida o suficiente para experimentar um outro jeito.

Até a próxima, Fer · Bravê

Publicado originalmente em O Fluxo #7 — abre em nova aba, a newsletter da Bravê no LinkedIn.

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