Quando entrei naquela área, a diretora de Design me recebeu com uma frase que eu não esqueci.
Mais um de processo chegando para nos dizer como trabalhar.
Ela não estava sendo grossa. Estava sendo honesta.
Antes de mim, outras pessoas tinham chegado com metodologias prontas, templates, sistemas. Cada uma com a certeza de que tinha a solução. Nenhuma tinha ficado tempo suficiente para entender o problema.
E eu estava chegando do mesmo jeito.
Esse é um dos pontos que mais aparece quando converso com PMOs que atuam em áreas criativas.
Eles chegam preparados. Conhecem as ferramentas, sabem o que precisa mudar. E encontram uma resistência que não esperavam. Silenciosa, persistente, que não vai embora mesmo depois de meses.
Do outro lado, os criativos dizem a mesma coisa com outras palavras. Que ninguém de fora entende de verdade como o trabalho funciona. Que toda vez que alguém chega "para organizar", as coisas ficam mais complicadas, não mais simples.
Os dois lados estão cansados. Os dois acham que o problema está no outro.
O que aprendi na prática é que o criativo não resiste a processo por birra ou por falta de comprometimento.
Ele resiste porque o processo chegou antes da conversa.
Tem uma diferença enorme entre organizar um time e organizar junto com um time. Na primeira, as pessoas fazem porque foram mandadas. Na segunda, elas fazem porque ajudaram a construir.
Vi isso acontecer várias vezes. PMO chega, monta o fluxo, apresenta tudo estruturado. Seis meses depois quase nada ficou. O time voltou a trabalhar como sempre trabalhou. Não por teimosia. Porque o processo nunca virou deles.
Uma coisa para pensar esta semana, seja você o lado processo ou o lado criativo:
A última mudança que não colou, em algum momento alguém sentou para entender como as coisas funcionavam antes de propor como deveriam funcionar?
Não para culpar ninguém. Para entender onde a conversa não aconteceu.
É uma batalha de convencimento todos os dias. Dois passos pra frente, um pra trás. E, às vezes, depois de dois anos trabalhando junto, você olha e percebe que a pessoa ainda não confia no processo.
Processo sem confiança é só burocracia.
E confiança não vem da ferramenta certa. Vem de quem ficou tempo suficiente para entender o terreno antes de querer mudar ele.
Até a próxima, Fer · Bravê
Publicado originalmente em O Fluxo #2 — abre em nova aba, a newsletter da Bravê no LinkedIn.
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