Fui chamada para trabalhar em um prêmio de arquitetura.
Existia um rascunho de edital, feito pela curadora. Um documento bem pensado, escrito por gente que entende profundamente do assunto. Na cabeça de todo mundo ali, o trabalho estava praticamente pronto. Era só ter o edital e seguir.
Mas na hora de transformar aquele edital em algo que as pessoas iam de fato usar, para se inscrever, enviar material, acompanhar o resultado, tudo travou. Foi aí que me chamaram.
E esse é um ponto que se repete em contextos completamente diferentes.
Pessoas extremamente inteligentes, referências no que fazem, com um domínio impressionante do próprio campo. Mas com pouca familiaridade com processo. Para elas, o edital era o fim da linha. O documento existia, então o trabalho estava feito.
Só que um edital não é um processo. É a intenção de um processo. Entre o texto do documento e a pessoa que vai se inscrever do outro lado da tela, existe um caminho inteiro que ninguém tinha pensado ainda. Quais etapas a pessoa percorre. O que ela precisa ter em mãos em cada uma. Onde ela pode se perder. O que acontece se faltar um documento. Como a organização recebe tudo isso sem virar bagunça.
Nada disso estava no edital. E nada disso é óbvio, até você precisar fazer acontecer.
O que eu faço nesses casos é o que mais gosto no meu trabalho, tradução.
Pegar o que está claro na cabeça de quem sabe e transformar em um caminho que funciona para quem está de fora. O especialista sabe o que quer. Mas o que é evidente para ele não é evidente para quem chega sem contexto. E é justamente nesse espaço, entre o que a pessoa sabe e o que ela consegue transmitir, que os processos costumam quebrar.
Não porque falta capacidade. Sobra. Falta a ponte entre a ideia e a execução.
O interessante é que, uma vez que essa ponte existe, o especialista respira.
Ele para de carregar todo o processo na cabeça, para de ser o único que sabe como as coisas funcionam, para de ser o gargalo por onde tudo precisa passar. O conhecimento dele deixa de estar preso nele e passa a estar no processo. E aí ele fica livre para fazer o que faz de melhor, que nesse caso, não é administrar etapas de inscrição.
Foi assim naquele prêmio. E é assim em quase todo lugar onde alguém brilhante ficou sobrecarregado por ser o único que entende como o próprio trabalho acontece.
Ter a ideia clara é o começo. Não o fim.
Entre o que você sabe e o que a outra pessoa consegue usar, existe um caminho inteiro. Alguém precisa desenhar ele.
Até a próxima, Fer · Bravê
Publicado originalmente em O Fluxo #6 — abre em nova aba, a newsletter da Bravê no LinkedIn.
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