O Fluxo #11 · Cultura

O que ninguém fala numa reunião

Fernanda SoutoFundadora e Consultora Sr.2 min de leitura

Já saí de muitas reuniões com a sensação de que tinha ficado tudo resolvido.

Todo mundo concordou. Ninguém levantou objeção. As cabeças balançaram, os prazos foram combinados, a pauta foi cumprida. No papel, alinhamento perfeito.

E aí, semanas depois, nada tinha acontecido. As pessoas voltaram para as mesas e seguiram fazendo exatamente o que faziam antes. O que foi combinado na reunião ficou na reunião.

Demorei pra entender o que estava acontecendo ali.

Não era má vontade. Não era que as pessoas concordavam na reunião e sabotavam depois. Era mais sutil e mais comum do que isso. Elas concordavam porque, naquele momento, concordar era o caminho mais fácil. Discordar dava trabalho. Discordar expunha. Discordar podia atrasar uma reunião que todo mundo queria que acabasse.

Então acenavam com a cabeça. Não porque estavam convencidas. Porque o silêncio custava menos que a objeção.

Tem uma coisa que aprendi observando isso se repetir: o alinhamento de fachada é mais perigoso que o conflito aberto.

Quando alguém discorda em voz alta, você sabe onde está o problema. Pode conversar, ajustar, negociar. O desacordo dito é uma informação e informação você consegue trabalhar. Já a falsa concordância é invisível. Ela parece resolução, mas é só adiamento. O problema não sumiu, ele só foi para debaixo dos panos, onde ninguém consegue enxergar ele.

E o que vai para debaixo dos panos não fica lá para sempre. Ele volta. Em forma de prazo que não fecha, de tarefa que não anda, de decisão que precisa ser tomada de novo porque, no fundo, nunca tinha sido aceita de verdade.

O que mudou meu jeito de trabalhar foi perceber que o silêncio numa reunião quase nunca é acordo.

Silêncio é ausência de informação. E ausência de informação, num processo, é sempre um risco. Quando todo mundo olha para os números e ninguém fala nada, não é porque está tudo certo. É porque tem algo que não está sendo dito e esse algo vai aparecer depois, geralmente no pior momento possível.

Aprendi a desconfiar da concordância fácil. A perguntar de novo, de outro jeito. A abrir espaço para a objeção que ninguém quer ser o primeiro a levantar. Porque foi sempre depois que o silêncio quebrou que as coisas de verdade começaram a andar.

Nem todo alinhamento é alinhamento.

Às vezes é só todo mundo evitando a conversa difícil que precisava, mais do que tudo, acontecer.

Até a próxima, Fer · Bravê

Publicado originalmente em O Fluxo #11 — abre em nova aba, a newsletter da Bravê no LinkedIn.

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