Teve um dia que me marcou demais, eu trabalhava com esse time há dois anos.
Dois anos juntos. A gente já se tratava como brother, aquela intimidade de quem divide o dia a dia há tempo. E aí, no meio de uma conversa qualquer, aconteceu uma coisa pequena que me fez perceber que, mesmo depois de todo aquele tempo, uma parte do time ainda não confiava de verdade no processo.
Lembro de pensar: dois anos e a gente ainda está aqui.
Demorei pra entender que aquilo não era fracasso meu. Era a natureza do trabalho.
Confiança não se instala. Não tem workshop que entregue, não tem metodologia que garanta, não tem apresentação boa o suficiente que convença de uma vez. Ela se constrói devagar, no dia a dia, e pode levar bem mais tempo do que a gente gostaria.
E enquanto ela não existe, qualquer processo que você propõe fica por um fio. As pessoas até fazem o que foi combinado. Mas é um fazer de fachada. No momento em que você vira as costas, elas voltam pro jeito de sempre. Não por má vontade. Porque mudar dá trabalho e ninguém se dedica de verdade a uma mudança em que não acredita.
Isso é ainda mais forte em áreas que trabalham com criação, com gente, com conexão humana.
Em contextos muito técnicos, de chão de fábrica, de número e máquina, a lógica é mais direta. O dado mostra, a decisão sai, pronto. E ainda assim, nesse caso, aparece desconfiança. Agora imagina num ambiente onde as pessoas são o centro, onde existe emoção e sensibilidade no que se faz. A conta muda completamente. Ali, antes de qualquer processo, você precisa das pessoas com você. E isso não se conquista por imposição.
A recepção, nesses lugares, quase nunca é calorosa no começo. Você chega e já carrega um rótulo: mais um que vem com metodologia, com burocracia, que quer encher todo mundo de documento. As pessoas se defendem antes mesmo de te conhecer. E a única coisa que desmonta isso não é um argumento melhor. É tempo, humildade e presença.
A parte mais importante do meu trabalho acontece antes de qualquer processo começar.
É ouvir sem querer resolver na primeira conversa. É observar como as coisas funcionam antes de opinar. É mostrar, com pequenos gestos, que eu não cheguei ali para impor o meu jeito, mas para entender o jeito que já existe. É deixar claro que eu vou ficar o tempo que for preciso e não só até o projeto terminar no papel.
E eu acredito, verdadeiramente, que todo mundo que trabalha com projetos ou processos deveria ter um altíssimo nível de empatia. É necessário e indiscutível.
Eu sei que parece lento. E é. Mas é esse tempo aparentemente perdido que faz todo o resto funcionar depois. Quando a confiança existe, o processo é aceito, cuidado, sustentado. E o sinal de que deu certo não é o time elogiar o que você construiu. É o time vir te procurar quando algo trava, pra resolver junto, porque aquele processo virou deles também.
Foi conquistar a confiança das pessoas antes de fazer qualquer coisa. Porque se você não conquista, elas até fazem. Mas você vira as costas e já voltaram a fazer como faziam antes.
A gente costuma achar que processo é uma questão de desenho. De etapa, de ferramenta, de método.
Mas no fundo é uma questão de confiança. E essa não se entrega pronta. Se constrói, um dia de cada vez, com quem vai viver ela.
Até a próxima, Fer · Bravê
Publicado originalmente em O Fluxo #13 — abre em nova aba, a newsletter da Bravê no LinkedIn.
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